Archive for the ‘vida’ tag
Navegar no Tietê é preciso
No último sábado tive o prazer de fazer algo que poucos paulistanos fazem, mas muitos deviam: Navegar pelo Rio Tietê.
A reação de várias pessoas ao saberem deste programa de fim de semana foi: “Credo, porquê?” – Em um tom questionador e ao mesmo tempo completamente chocado, como se eu estivesse engajado em algum tipo de atividade auto-destruidora como drogas pesadas, ou chocante como tatuar uma palavra obscena na minha testa.
E essa reação mostra o quão longe estamos de conseguir retomar nossos rios e mananciais. Sim, nossos, pois o problema não está apenas no Tietê, sequer apenas nele e no Pinheiros. Tamanduateí, Guarapiranga, Billings e diversos outros corpos aquáticos estão em constante ameaça e devem ser monitorados sempre.
Não vou perder tempo contando a história do rio ou recitando informações sobre os esforços para limpá-lo. Para isso, recomendo o EcoBlogs, o NavegaSP e a Wikipedia.
De qualquer maneira não é preciso ler nada disso para saber que o rio está deplorável por uma boa extensão. Ele é praticamente inútil na cidade de São Paulo. Lembro que ao trazer um gringo a São Paulo pela primeira vez, ele viu o rio em obras da janela do ônibus e comentou: “nossa, que buraco enorme” – e tive que explicar pra ele que por trás daquela montanha de terra nojenta estava um rio mais nojento ainda.
Mas por quê chegamos nesse ponto? Simplesmente porque esquecemos. Esquecemos de porque São Paulo, como tantas cidades, é onde é, cercada de rios. Esquecemos de sua real utilidade e agora o usamos simplesmente como uma gigantesca faixa continua separando as mãos de uma via. E só lembramos dele quando ele nos atrapalha, com seu cheiro fétido e inundações.
Não tenho a menor ilusão de que retornaremos aos belos tempos de natação, regatas e pescarias que nossos avós tão saudosamente nos descrevem. Várias gerações já nasceram com o Tietê em desgraça, o Tietê respeitável e útil é para nós hoje uma anedota, um mito tão distante quanto dragões.
Recentemente houve uma verdadeira caça às bruxas contra os fumantes em São Paulo. Todos criticando fumantes como pessoas burras e egoísta, que atraem câncer pra si e aqueles em volta, se matando aos poucos. Mas quando o assunto são nossos rios, somos todos fumantes. E já estamos com câncer; não só não o tratamos direito, como continuamos fumando. Nossa relação com nossos rios é assim.
Há poucos meses estive de férias e visitei três grandes cidades as margens de famosos rios: Londres (Tâmisa), Paris (Sena) e Lisboa (Tejo). E em todas elas o rio ainda tem um papel importante e útil em suas cidades.
Os três ainda são navegados regularmente, inclusive por passeios turísticos. No Sena há inclusive uma praia sazonal, e embora ninguem nade nele de fato, há ao menos uma piscina pública flutuante sobre ele. No Tâmisa foi inaugurada recentemente um caminho cênico com o objetivo de revitalizar uma área degradada de Londres. Já o Tejo, que inclusive fede em algumas partes, é o mais largo, comportando regatas e cruzeiros; mas Lisboa é uma cidade bem menor que as outras.
E então vários brasileiros se deslumbram. Tudo la fora é melhor, mais arrumado, mais bonito, mais cheiroso, organizado, elegante, tudo mais e melhor. Acham chique e divertido andar de metrô em Paris, bicicleta em Amsterdam, bonde em Lisboa e ônibus de dois andares em Londres. Mas em São Paulo, jamais! Mas poucos sabem que tanto o Sena quanto o Tâmisa já foram bem fedidos e passaram por processos de revitalização. Que o palácio de Versailles, com todo seu luxo não tinha banheiros, e que Londres tinha um dos esgotos mais mal feitos da história. E que os Portugueses construiram Paraty, uma cidade feita em cima do mangue e que era inundada pelo mar.
O que eles fizeram para solucionar esses atrasos de vida? Bem, eles tomaram atitude a respeito. Que atitude nós tomamos a respeito do Tietê e nossos outros problemas? Subimos o vidro do carro.
Durante o passeio, um sujeito contou uma anedota de como no Japão, se você não separa seu lixo direito, ganha um bilhete do lixeiro com uma bronca. E como isso é evoluído. Sim, de fato é evoluído. Mas vamos transpor isso para o Brasil. Imagine uma madame que vive em Moema tomando bronca do lixeiro. Imaginou? Riu também? Não conseguimos nem aplicar uma multa de estacionamento proibido sem que alguém se sinta extremamente injustiçado.
O que diferencia esses rios, e tudo que a classe média alta paulistana acha de tão melhor na gringolândia é a atitude coletiva. Sinto dizer que não temos isso. Muito menos a classe média alta paulistana.
Nós temos o péssimo hábito de externalizar, especialmente responsabilidades e culpa. Se há muito trânsito, a culpa é dos outros carros. Se eu não tenho onde jogar meu papel fora, jogo em qualquer lugar. Se o rio fede, a culpa é do governo que não trabalha. A mentalidade é: Enquanto minha propriedade particular e interesses pessoais estiverem seguros, o resto não importa tanto. O rio nem me incomoda tanto, a não ser que ele transborde quando eu estiver indo pra Guarulhos pegar meu vôo para Paris.
Sim, é culpa do governo. Mas somos uma sociedade, sendo o governo parte dela tanto quanto nós mesmos. Resolver problemas exige participação de todos. O interessante de turistas deslumbrados com o velho mundo é que eles não se veem como parte do problema, a culpa do Brasil dar com os burros n’água é de todos os outros brasileiros.
Antes de dizer o quanto a grama do vizinho é mais verde, seria bom entender que adubo ele está usando. E começar a ir atrás dessa fórmula mágica.
Recuperar o Tietê requer um esforço conjunto de autoridades e cidadãos comuns. Onde ambos estejam atentos as múltiplas causas e a extensa lista de mudanças (fisicas e comportamentais) que devem ser feitas para reavermos nosso rio. Onde o governo elabora legislação e políticas que forçam a mudança de comportamento dos cidadãos – como fizemos no caso dos fumantes.
www.flickr.com
|
Nestlé Picolé Alpino – Tem Alpino ou não tem?
A bebida Alpino Fast tem gerado muitas críticas à Nestlé desde que um post no blog Coma Com Os Olhos chamou a atenção para a ausência de chocolate Alpino no produto. A história ainda se desenrola e pode render processo e multa.
Se não me engano, o picolé Alpino da Nestlé está no mercado ha mais tempo do que a infame bebida. Eu ao menos o consumo ha mais de ano, muito antes de ouvir falar dela.
Mas hoje, influenciado pela polêmica “fast” finalmente investiguei propriamente a embalagem do picolé e de fato encontrei o aviso de que não há chocolate Alpino na composição do produto.
O que torna a situação mais grave é que a descrição no site da Nestlé diz claramente que o picolé é feito com Alpino.
Afinal, tem Alpino ou não tem?
carros: uma ameaça ao convívio em sociedade
Viver em sociedade é uma arte bastante complexa. Tão complexa que ainda não a dominamos. Dizemos uns aos outros que sim, mas é uma ilusão. O caos do trânsito é uma das maiores provas disso. Escrevo isso com os exemplos de São Paulo e Belo Horizonte em mente, as cidades em que vivi. Mas sintam-se livres para aplicar a suas realidades.
Sociedade
Um dos grandes problemas de viver em sociedade é separar a esfera pública da esfera privada. Claro que existem momentos em que elas se cruzam, e esses são os mais delicados. Para os que não entendem essa diferença, tenho um exemplo crasso: Se você é mordido pelo cachorro da sua sogra, trata-se de um problema privado. Se você é mordido por um cão solto na rua, é um problema público.
Uma solução para o primeiro exemplo seria cortar relações com a sogra, ou terminar o namoro. Em casos extremos, sacrificar o cachorro. Já no segundo caso, recomendo chamar a carrocinha, ou até mesmo adotar e adestrar o cão.
Experimento mental
Mas o que fazer quando o problema é transporte? A quem reclamar? Façamos um experimento mental digno de Newton:
O Sr. Andante quer de ir de A a B e não consegue, pois não existe um meio de transporte público para isso. Ou até existe, mas não é conveniente o suficiente para seu grau de exigência. A solução “rápida” e “fácil”? Comprar um carro, claro. Sr. Andante tornou-se então, o Sr. Volante.
Assim, ele sai serelepe todos os dias para trabalhar com seu libertador automóvel. O tempo passa, e todos os seus vizinhos percebem que têm o mesmo problema. Alguns nem tem o mesmo problema, mas vêem o Sr. Volante passeando feliz e ficam com inveja. Cansam de pegar ônibus. E com o tempo, todos eles compram seus carros.
É então que acontece isso com eles e todos aqueles que fazem o trajeto entre A e B:
E o que era algo prazeroso e prático para alguns torna-se um inferno para muitos. Não apenas para eles, mas também para aqueles que por opção ou não, ainda tomam outros meios de transporte. O problema de falta de transporte público não foi resolvido e criou-se um segundo, o de volume de tráfego, que intensifica o primeiro.
Individualismo e a perda do prazer
O mais interessante é que quando atingimos recordes de congestionamento, todos os motoristas ficam indignados, como se os engarrafamentos fossem causados por todos os outros carros menos o deles. Gostaria muito de ter esse carro solúvel.
Certa vez, estava em um ônibus e o motorista indignado xingava todos os motoristas solitários que atrapalhavam o trajeto. Vamos colocar em perspectiva a mentalidade de um motorista solitário que fecha ou corta um ônibus:
“Há 30 pessoas naquele ônibus. Mas quem tem prioridade aqui sou eu. Eu preciso chegar no meu destino mais rápido do que elas.”
Um mundo regido pelo transporte individual é um mundo regido pela mentalidade do “eu é que importo”. Não há incentivo ao crescimento e cooperação. Apenas competição.
É curioso, ou se preferirem, estúpido, que para locomover uma pessoa de cerca de 70kg, o meio mais desejado seja um objeto de quase uma tonelada movido a um motor de combustão interna que solta poluentes e gera altos gastos em manutenção. E quanto maior, melhor. Também é preciso ter um motor potente, muitos opcionais distrativos e customizações infinitas. O carro deve refletir a personalidade de seu dono. Minha roda deve expressar quem eu sou.
Mas na hora do “vamo-ver”, congestionamentos não discriminam o quanto você gastou no seu transporte:
Segundo Marco Gomes: O carro a esquerda é uma Ferrari, parada no congestionamento igual todos os outros carros.
Quando colocamos o problema desta maneira, sempre surge alguém para se fazer de vítima “ah, mas eu preciso do carro porque bla bla bla” -- Não me interessam suas histórias pessoais. Não estou aqui para falar de excessões, mas sim de regras. Regras para conviver em sociedade. Claro que há casos em que o carro é uma ferramenta útil. E sim, ele é um objeto interessante. Eu gosto de carros, como objetos. Eu tenho um. Não o uso para trabalhar, pois eu quero ter prazer em dirigir, e dirigir todos os dias não me dá prazer algum.
Heróis subsidiados do egoísmo
Sou afortunado, vivo em uma região relativamente abundante em transporte público, mesmo que não tanto quanto eu gostaria. Posso sempre pesquisar uma alternativa a usar meu carro, e geralmente ela existe. E muitas das pessoas que gostam de dizer “mas transporte público é uma merda” ou “mas eu preciso usar o carro porque bla bla bla” também têm a mesma sorte, o que elas não têm é coragem de admitir que:
- Têm medinho de andar de transporte público
- Acham transporte público algo pobre e indigno
- Têm preguiça
Ou em casos extremos:
- São burras
- São egoístas
Nossa suposta elite não é capaz de entender que não está solucionando problema algum. Estão apenas solucionando o problema individual delas, e agravando outro no processo. Restam aos sem opção/dinheiro seguir usando um sistema deficitário cujos defeitos são agravados por aqueles que não pensaram coletivamente.
Não que os usuários de transporte público sejam heróis. A maioria deles está lá por falta de opção mesmo. Caso contrário juntariam-se aos Volantes e continuaram agravando a situação sem parar para pensar sequer um minuto. E o que as autoridades fazem? Gastam bilhões para continuar incentivando o transporte motorizado individual. Literalmente subsidiando a propriedade privada. Se numa via não se pode passar bicicletas, pedestres ou ônibus restam apenas os carros particulares.
Gosto bastante de ouvir motoristas reclamando da “indústria de multas“, como se fossem vítimas de uma gangue de agentes do governo. Ora bolas, você cometeu uma infração ou não? Se não, recorra, se sim, cale a boca e pague a multa. Poucos lembram-se que dirigir não é um direito, é uma concessão. Que pode, e deve, ser suspensa caso o dono dela não se comporte. Ter um sistema de transporte público eficiente é um direito, um que poucos cobram, preferindo acovardar-se dentro de seus carros.

Só pague a multa de estacionamento. Não fique tão revoltado. Você não está lutando pelos direitos civis. Você parou em fila dupla.
Esse tipo de reclamação egoísta é o retrato de uma classe privilegiada acostumada a dar seus jeitinhos mas completamente intolerante aos erros alheios.
Um exemplo de que pode funcionar
Ainda não está convencido de que transporte público é melhor que privado? Conheça Top Gear. Um programa da BBC sobre carros, onde uma das atividades preferidas é colocar um carro contra outra forma de transporte. No exemplo abaixo, um Nissan GTR contra o transporte público japones (englobando trens, ônibus, balsa e teleférico) atravessando o Japão:
Pra quem não quer ver todas as partes eu digo: O carro ganha por 5 minutos. Mas vale lembrar que ele fez isso ultrapassando o limite de velocidade e com um trajeto 240 kilometros menor.
Se você quiser ver mais, ainda temos um Peugeot 207 perdendo de praticantes de Parkour:
E um Fiat 500 perdendo de ciclistas:
Claro que são extrapolações, mas são divertidas.
O individual vs o coletivo
Problemas coletivos não são solucionados por iniciativas individuais. Resolver o seu problema não resolve O problema. A solução para o transporte é uma rede eficiente, educação consistente e fiscalização -- tanto dos motoristas privados quanto do sistema público. Dizer que o sistema atual é uma merda e continuar atopetando as ruas de carros e motos não vai melhorar a situação, é preciso cobrar das autoridades, e cobrar com causa -- reclamar do carro vizinho não vai fazer o transito melhorar, reclamar da falta de ônibus ou metrô, possivelmente.
Reflita: você precisa mesmo do seu carro todos os dias? Não existe outro meio de chegar onde você quer? Enquanto habitantes de bairros distantes sofrem para ir de casa ao trabalho, moradores da Vila Mariana vão de carro ao shopping almoçar.
Uma solução que proponho é tratarmos socialmente os motoristas solitários (aqueles que conduzem seus carros apenas para si mesmos, indo e vindo do escritório a 6km de distância, ou seguindo para alguma banalidade) da mesma maneira que nossa sociedad têm tratado os fumantes, ou os bêbados. Afinal, não estão esses motoristas basicamente externalizando as consequencias de seus atos como eles?
Por que não coibir, ou até mesmo proibir, o trajeto de carros particulares com apenas um ocupante? -- Salvo necessidades especiais como idosos, deficientes e etc. Aproveitemos para banir todos os carros oficiais de qualquer repartição pública. Regulamentar de uma vez por todas as profissões e empresas de entrega?
Você pode achar essas medidas extremas, mas não estamos além do extremo do aceitável em termos de qualidade de vida quando o assunto é o direito básico de ir e vir? Falta de serviço adequado, soluções gambiarrescas, lógicas deturpadas, falta de senso coletivo e altos níveis de stress que com certeza fazem tão mal à saude quanto fumo passivo.
Temos que botar a boca no trombone. Reclamarmos a todos que tem ouvidos. Encher o saco de individuos, instituições e autoridades. Atacar por todas as frentes, pedindo não apenas uma rede decente de transporte em nossas cidades, mas também uma melhor educação e fiscalização do trânsito, leis ainda mais rígidas e mais táxis nas ruas com tarifas não insultantes.
Como referência de que não estou louco em minhas declarações, encerro esse texto voltando ao movimento dos direitos civis, mais especificamente a Martin Luther King Jr, que dentre muitas coisas sábias, disse:
“Lamentably, it is an historical fact that privileged groups seldom give up their privileges voluntarily”
Lamentavelmente, é um fato histórico que grupos privilegiados raramente abrem mão de seus privilégios voluntariamente.
“Injustice anywhere is a threat to justice everywhere.”
Injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar.
“Just as Socrates felt that it was necessary to create a tension in the mind so that individuals could rise from the bondage of myths and half-truths to the unfettered realm of creative analysis and objective appraisal, we must we see the need for nonviolent gadflies to create the kind of tension in society that will help men rise…”
Assim como Sócrates sentiu necessário criar uma tensão na mente para que individuos levantassem-se dos grilhões dos mitos e meias-verdades ao reino irrestrito da análise criativa e apreciação objetiva, nós devemos enxergar a necessidade de ações não-violentas para criar o tipo de tensão na sociedade que ajudará o homem a levantar-se…
Fonte (tradução por mim)
Leitura recomendada:
- Como nascem os congestionamentos
- Industria de multas?
- Desafio na cidade que se espalha
- O Custo de uma ponte estaiada
- Vauban, a Car-free town
tudo que aprendi na vida, aprendi com star trek
Em breve parto para a pré-estréia de Star Trek. E pretendo verbalizar minhas opiniões a respeito do filme por aqui. Mas antes, um post pessoal fazendo uma retrospectiva dessa franquia pop na minha vida. Para os aversos ou não escolados aviso que esse texto, embora faça inúmeras referências a franquia, não é sobre ela - é sobre minha relação com ela. Agora, se você é averso tanto a mim quanto a Star Trek, parem de ler agora.
Aos 13 ou 14 anos, eu tinha uma forte tendencia nerd. Diferentes amigos me apresentaram três importantes pilares educativos para seguir esse iluminado caminho: Quadrinhos, RPG e Star Trek. Enquanto RPG havia deixado uma marca leve até então, rapidamente peguei o embalo em Star Trek e quadrinhos de super-herói, embora sinceramente não tenha certeza de qual ocorreu primeiro.
Mas seja qual for, a presença de Star Trek foi chave. Já havia visto alguns episódios da série clássica dos anos 60 nas tardes da Record, e achava divertido. E tinha vagas lembranças de meu pai assitindo A Ira de Khan. Mas foi aí que um grande amigo me emprestou os então 6 filmes para o cinema. Em duas tardes assisti tudo. E fui fisgado. O futuro limpo e aventuresco, a tecnologia, as pessoas de diferentes origens contribuindo de diferentes maneiras para o objetivo comum – tudo aquilo me fascinava, achava de uma imaginação incrível.
Poucos meses depois me mudei de cidade, e em um lugar desconhecido, lutando para fazer amigos, muitas das minhas tardes eram preenchidas por Kirk, Picard e seus respectivos amigos. E foi graças a eles, e minha coleção de naves de montar, que conheci vários outros amigos, com gostos semelhantes, que me puxaram ainda mais para o lado nerd da força.
Longas discussões sobre se a Enterprise conseguiria derrotar um Battlecruiser, noites em claro jogando jogos de tabuleiro e RPGs. Mais quadrinhos, mais filmes e seriados de Star Trek e outras ficções científicas ou não. Bons tempos. Os mesmos amigos depois cresceram comigo, muitos deles mantenho contato até hoje e são grandes companheiros de vida. Todos nós tivemos a nerdice diluida na míriade de influências que tomou conta de nossas vidas desde então, mas o coração de cada um ainda guarda enorme espaço para essas paixões seminais.
O tempo passou e Star Trek foi tendo cada vez menos lugar na minha mente. Outras influências culturais, educativas e sociais foram permeando e empurrando Star Trek para o escanteio – sequer assisti os seriados de Voyager ou Enterprise
por inteiro; e pensando bem, provavelmente nem vi tudo de A Nova Geração
. Meu gosto por tecnologia e ciência continuou. Trabalho com tecnologia e embora eu não seja cientista, o assunto me interessa muito, e tendo a usar um approach científico para a tomada de decisões. Sendo um designer, sempre fujo de colocações qualitativas como “gostei” ou “porque quero” em troca de argumentações lógicas. Independente do seu ramo, enxergo como uma maneira muito mais válida de enxergar seu trabalho.
Culturalmente continuei apreciando Fantasia e Ficção-Científica, mesmo que com uma frequência menor. Meu gosto por um drama bem escrito aumentou, e passei a buscar essas qualidades em todos os gêneros. O que me levou ao meu favorito atual: Battlestar Galactica - uma série que ao meu ver pegou a tocha de reflexão abandonada por Star Trek há muito. Ter um contato menor com a pureza de Star Trek, creio que aumentou meu grau de cinismo com relação ao mundo; o que considero saudável. Sempre que retorno a Star Trek acabo por buscar os momentos em que a série trancende seus padrões filosóficos e dramáticos e mostra um brilho diferente (poderia listá-los, mas não o farei).
A mensagem mais difundida de Star Trek, com seu futuro utópico, de que existe esperança para a humanidade, já não faz efeito em mim – afinal eu vejo notícias. O que Star Trek ajudou a incutir em mim, e que considero valores importantes, foram a curiosidade e a tolerância. Dois pontos chaves para tentar entender o mundo e os indivíduos a sua volta. Mesmo que você não concorde e mesmo tente dissuadí-los de seus caminhos, você consegue compreender de onde esse caminho surgiu. Ao meu entender, sem esses dois sentimentos você não chega na visão utópica. Enquanto o tema de Star Wars é o crescimento pessoal, Star Trek fala do crescimento da raça humana.
Não é uma questão de dar as mãos e sermos felizes. Ser politicamente correto, além de não ter graça, só abafa as diferenças, não as agrega. É preciso entender que por trás da convivência existe um trabalho duro e muita paciência. A utopia não é onde todos são iguais, é onde entendemos que não somos todos iguais, e não devemos ser. Da maneira que minha vida se desenrolou, ter assistido Star Trek me colocou no caminho certo para conhecer as pessoas certas na hora certa. Pessoas que me abriram os olhos muito mais do que qualquer seriado.
Star Trek tem sim uma certa ingenuidade por achar que a unificação da humanidade é inevitável e a partir daí, inabalável. Por isso que minha encarnação preferida da franquia é Deep Space Nine. Pois ela conseguiu balancear bem a vontade da utopia e as dificuldades que os indivíduos impõe para atingir este nobre objetivo.
Todos temos defeitos, e é preciso saber lidar com eles para o nosso bem e o bem maior. Assim como Deep Space Nine, o sexto filme para o cinema, A Terra Desconhecida, toca nesses assuntos. É o último filme reunindo toda a chamada tripulação Clássica, que decidi assistir novamente no último fim de semana como fechar o círculo antes do filme de JJ Abrams. Nele, vemos os personagens lutando para não se tornarem obsoletos – uma luta da própria franquia – senhores, e uma senhora, de idade tentando olhar além de seus preconceitos e enxergar o que há de comum entre eles e seus inimigos mortais de décadas. Não porque é o certo, mas porque é assim que se sobrevive. Teorizo que Kirk e seus amigos enfrentam seu maior desafio até então, pois a ameaça não se trata de uma nave ou entidade que pode ser dispensada com o apertar de alguns botões, mas sim a mudança, pura e simplesmente.
E a mudança não pode ser impedida, ela pode ser moldada, para o melhor ou para o pior. Assim como nos nossos tempos atuais de crise.
De longe não estou dizendo que para ter esses sentimentos de desbravamento e tolerância é necessário assistir Star Trek. Há muitas outras fontes, mais nobres e menos estapafúrdias. Mas para mim, esse universo veio no tempo certo. Aquela época em que absorvemos muita informação, seja ela qual for, que nos achamos invencíveis e donos da verdade. Ajudou tanto a entender que existe um vasto e desconhecido universo a minha volta, para o qual a humanidade não faz a menor diferença – me colocando num paradoxo: por um lado me deixou humilde, por outro metido a besta por achar que entendia mais que os outros (que trouxa).
Star Trek foi um acerto pra mim. E espero que JJ Abrams seja um acerto para Star Trek, empurrando a franquia um passo adiante, colocando-a como algo de vanguarda novamente – pois bem sabem os fãs abalisados que ela precisa. Provavelmente não me sentirei inspirado como já me senti antes, apesar de tolerante, ainda sou bastante cínico, sarcástico e descrente.
E assim seguimos, com muito mais a aprender com nossas derrotas e vitórias. Mesmo que o presente não nos permita ver a utopia, podemos continuar lutando por ela. Afinal, só assim vamos atingir a fronteira final; onde nenhum homem, ninguém, jamais esteve.
PS: O título é uma piada corrente entre Trekkers/Trekkies (mais uma diferenciação inútil) e é uma paráfrase do título deste livro.
the nerd is dead
NOTA: Comecei esse texto como uma reflexão sobre minha relação com Star Trek. Mas ele acabou tomando outra forma, embora ainda bastante relacionada. O texto sobre Star Trek e eu virá em breve. Mas por enquanto fiquem com essa elocubração que venho mastigando a algum tempo, sobre como creio que o sentido da palavra nerd se perdeu nos dias de hoje.

Creio firmemente que nerds e geeks são conceitos completamente perdidos nos dias de hoje. Por questões práticas usarei apenas o termo nerd para significar ambos e dispensar o longo e estúpido debate de qual é a diferença. Hoje em dia não se passa um dia sem que alguém bata no peito declarando ser nerd, ou uma semana sem que algum veículo grande de mídia mencione o assunto de uma forma ou de outra. Basicamente, para ser nerd hoje basta gostar qualquer seriado que tenha algo de sobrenatural/tecnologico e passar muito tempo conversando com pessoas no computador. Convenhamos, todos que trabalha em um escritório passa a maior parte do tempo conversando com pessoas por um computador, a partir daí basta chegar em casa e ligar no Sony ou Warner. Pronto, temos um “nerd”.
Não ao meu ver. Creio em outra definição, alinhada ao significado original de Otaku: Alguém extremamente dedicado, muitas vezes cegamente, a um punhado de atividades. Sejam elas envolvidas com seu trabalho, seu gosto em cultura popular ou hobby – de empilhadeiras a cantoras pop pré-fabricadas tipo Britney Spears. Exemplos clássicos de figuras assim seriam Leonardo da Vinci
, Isaac Newton, Steve Wozniak e um punhado serial killers. E hoje em dia, com uma pessoa famosa por semana, são poucos aqueles que realmente se dedicam a algo.
O final dos anos 90 marcou um grande declinio na população nerd clássica. A proliferação da tecnologia e facilidade de acesso a informação fez com que o conceito abrisse as pernas e passasse a incluir toda a gama de nerdices que temos hoje. Ao ponto de que declarar-se nerd chega a ser cool. Bem, se é cool, não pode ser nerd. Ainda existem true nerds por aí, mas raramente ouvimos falar deles. E porquê? Eles não gostam de atenção. Nerds gostam de sua dedicação e dos universos que criam em volta delas, são aversos a interferências externas. Não gostam da mídia fazendo circo em volta deles.
Como parte desse novo formato do conceito de nerd, os frutos da cultura pop considerados extremamente nerds passaram a tomar uma nova faceta também. Como declarar-se nerd, elas também passaram a ser cool. Seriados de dedicação extrema e trama intrincada como Lost, Star Wars
, Senhor dos Anéis
e Super-heróis; todos se tornaram mega super sucessos e verdadeiras manias sem fim. Jogos de RPG deixaram de significar um bando de adolescentes espinhudos reunidos em uma mesa na madrugada para ser um gênero de video-game altamente lucrativo. Antigas franquias de ficção-científica ganharam nova roupagem, como Speed Racer
, o já mencionado Star Wars, Terminator
, Battlestar Galactica
, Super Máquina, Mulher Biônica
e vários outros – independente do grau de sucesso original.
Claro que muitos dos exemplos que dei foram de fato bem sucedidos no passado, caso contrário não teriam durado tanto no imaginário popular. Mas não havia a opinião generalizada de que Obi-Wan Kenobi, além de assunto nerd, era um cara super cool. Muitas pessoas admitiam que gostavam de “coisas de nerd” apenas em lugares fechados e de pouco acesso, jamais batendo no peito e gritando por aí. Os nerds se guardavam para si.
De maneira nenhuma eu acho que tudo tenha que parar e precisamos dar uma freada. Embora aquele cara gorducho de camisa-azul clara e protetor de bolso, que trabalha com mainframes em um porão e tem uma coleção de bonecos do Optimus Prime, deve ter tido um enfarto ao ver o filme dos Transformers. Que venha mais e mais, mas com qualidade, por favor, não me façam assistir Elektra. Eu só enxergo que tudo isso, simplesmente deixou de ser nerd.
Me parece que estou me comportando como uma metalinguagem humana. Sendo um nerd a respeito do termo nerd. Mas isso está além do meu controle. Está na hora de aceitar que o termo se perdeu, e nada mais será como antes. O futuro já chegou. Como disse uma vez, a realidade atual é cyberpunk. Por isso, passarei a usar o termo Otaku, que apesar de distorcido no ocidente para significar o “nerd de anime”, ainda não é tão difundido – pelo menos até eu bolar um nome melhor, e bem obscuro – coisa de nerd.




















