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Navegar no Tietê é preciso
No último sábado tive o prazer de fazer algo que poucos paulistanos fazem, mas muitos deviam: Navegar pelo Rio Tietê.
A reação de várias pessoas ao saberem deste programa de fim de semana foi: “Credo, porquê?” – Em um tom questionador e ao mesmo tempo completamente chocado, como se eu estivesse engajado em algum tipo de atividade auto-destruidora como drogas pesadas, ou chocante como tatuar uma palavra obscena na minha testa.
E essa reação mostra o quão longe estamos de conseguir retomar nossos rios e mananciais. Sim, nossos, pois o problema não está apenas no Tietê, sequer apenas nele e no Pinheiros. Tamanduateí, Guarapiranga, Billings e diversos outros corpos aquáticos estão em constante ameaça e devem ser monitorados sempre.
Não vou perder tempo contando a história do rio ou recitando informações sobre os esforços para limpá-lo. Para isso, recomendo o EcoBlogs, o NavegaSP e a Wikipedia.
De qualquer maneira não é preciso ler nada disso para saber que o rio está deplorável por uma boa extensão. Ele é praticamente inútil na cidade de São Paulo. Lembro que ao trazer um gringo a São Paulo pela primeira vez, ele viu o rio em obras da janela do ônibus e comentou: “nossa, que buraco enorme” – e tive que explicar pra ele que por trás daquela montanha de terra nojenta estava um rio mais nojento ainda.
Mas por quê chegamos nesse ponto? Simplesmente porque esquecemos. Esquecemos de porque São Paulo, como tantas cidades, é onde é, cercada de rios. Esquecemos de sua real utilidade e agora o usamos simplesmente como uma gigantesca faixa continua separando as mãos de uma via. E só lembramos dele quando ele nos atrapalha, com seu cheiro fétido e inundações.
Não tenho a menor ilusão de que retornaremos aos belos tempos de natação, regatas e pescarias que nossos avós tão saudosamente nos descrevem. Várias gerações já nasceram com o Tietê em desgraça, o Tietê respeitável e útil é para nós hoje uma anedota, um mito tão distante quanto dragões.
Recentemente houve uma verdadeira caça às bruxas contra os fumantes em São Paulo. Todos criticando fumantes como pessoas burras e egoísta, que atraem câncer pra si e aqueles em volta, se matando aos poucos. Mas quando o assunto são nossos rios, somos todos fumantes. E já estamos com câncer; não só não o tratamos direito, como continuamos fumando. Nossa relação com nossos rios é assim.
Há poucos meses estive de férias e visitei três grandes cidades as margens de famosos rios: Londres (Tâmisa), Paris (Sena) e Lisboa (Tejo). E em todas elas o rio ainda tem um papel importante e útil em suas cidades.
Os três ainda são navegados regularmente, inclusive por passeios turísticos. No Sena há inclusive uma praia sazonal, e embora ninguem nade nele de fato, há ao menos uma piscina pública flutuante sobre ele. No Tâmisa foi inaugurada recentemente um caminho cênico com o objetivo de revitalizar uma área degradada de Londres. Já o Tejo, que inclusive fede em algumas partes, é o mais largo, comportando regatas e cruzeiros; mas Lisboa é uma cidade bem menor que as outras.
E então vários brasileiros se deslumbram. Tudo la fora é melhor, mais arrumado, mais bonito, mais cheiroso, organizado, elegante, tudo mais e melhor. Acham chique e divertido andar de metrô em Paris, bicicleta em Amsterdam, bonde em Lisboa e ônibus de dois andares em Londres. Mas em São Paulo, jamais! Mas poucos sabem que tanto o Sena quanto o Tâmisa já foram bem fedidos e passaram por processos de revitalização. Que o palácio de Versailles, com todo seu luxo não tinha banheiros, e que Londres tinha um dos esgotos mais mal feitos da história. E que os Portugueses construiram Paraty, uma cidade feita em cima do mangue e que era inundada pelo mar.
O que eles fizeram para solucionar esses atrasos de vida? Bem, eles tomaram atitude a respeito. Que atitude nós tomamos a respeito do Tietê e nossos outros problemas? Subimos o vidro do carro.
Durante o passeio, um sujeito contou uma anedota de como no Japão, se você não separa seu lixo direito, ganha um bilhete do lixeiro com uma bronca. E como isso é evoluído. Sim, de fato é evoluído. Mas vamos transpor isso para o Brasil. Imagine uma madame que vive em Moema tomando bronca do lixeiro. Imaginou? Riu também? Não conseguimos nem aplicar uma multa de estacionamento proibido sem que alguém se sinta extremamente injustiçado.
O que diferencia esses rios, e tudo que a classe média alta paulistana acha de tão melhor na gringolândia é a atitude coletiva. Sinto dizer que não temos isso. Muito menos a classe média alta paulistana.
Nós temos o péssimo hábito de externalizar, especialmente responsabilidades e culpa. Se há muito trânsito, a culpa é dos outros carros. Se eu não tenho onde jogar meu papel fora, jogo em qualquer lugar. Se o rio fede, a culpa é do governo que não trabalha. A mentalidade é: Enquanto minha propriedade particular e interesses pessoais estiverem seguros, o resto não importa tanto. O rio nem me incomoda tanto, a não ser que ele transborde quando eu estiver indo pra Guarulhos pegar meu vôo para Paris.
Sim, é culpa do governo. Mas somos uma sociedade, sendo o governo parte dela tanto quanto nós mesmos. Resolver problemas exige participação de todos. O interessante de turistas deslumbrados com o velho mundo é que eles não se veem como parte do problema, a culpa do Brasil dar com os burros n’água é de todos os outros brasileiros.
Antes de dizer o quanto a grama do vizinho é mais verde, seria bom entender que adubo ele está usando. E começar a ir atrás dessa fórmula mágica.
Recuperar o Tietê requer um esforço conjunto de autoridades e cidadãos comuns. Onde ambos estejam atentos as múltiplas causas e a extensa lista de mudanças (fisicas e comportamentais) que devem ser feitas para reavermos nosso rio. Onde o governo elabora legislação e políticas que forçam a mudança de comportamento dos cidadãos – como fizemos no caso dos fumantes.
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muito, muito, além dos quadrinhos
É com grande prazer que aviso que o livro Muito Além dos Quadrinhos acaba de sair do prelo. Em tempo para o lançamento no próximo sábado, dia 26.
A lista completa dos artigos:
- Margarida
no Brasil: retrato de uma mulher pós-moderna, de Agda Dias Baeta;
- A história em quadrinhos e a imagem como informação: a coexistência da ficção e da realidade, de Alexandre Barbosa;
- Heróis no Brazil
: uma (des)caracterização do espaço geográfico brasileiro, de Angela Rama;
- Um encontro de grafismos nos Pampas: breve histórico das histórias em quadrinhos na Argentina, de Eloar Guazzelli;
- Batman
de Beethoven
: um olhar sobre as adaptações televisivas do Homem-Morcego, de Fernando de Oliveira Mafra;
- O caipira de todos nós: a construção do sentido de um tipo brasileiro nos quadrinhos, de Gêisa Fernandes D´Oliveira;
- O uso da gíria nas histórias em quadrinhos, de Paulo Ramos;
- Influências religiosas e sobrenaturais nos quadrinhos nacionais de terror, de Túlio Vilela;
- Quadrinhos e educação popular no Brasil: considerações à luz de algumas produções nacionais, de Waldomiro Vergueiro.
Veja nota no Omelete e no UniversoHQ
Compareçam:
Sábado, 26 de Setembro – a partir das 19:30
Livraria HQ Mix
Praça Roosevelt, 142, centro, São Paulo SP [mapa]
muito além dos quadrinhos
Fazemos um break da nossa programação reclamona normal para um anúncio especial
Muito Além dos Quadrinhos é o título do livro do qual participo com o artigo Batman de Beethoven. Isso mesmo, mashup de Batman e música erudita – na verdade uma tentativa de fazer um título intrigante e poético.
Pra quem nunca me ouviu falar dessa história que levou anos para ser concluída, trata-se de um artigo sobre as adaptações para a televisão do homem-morcego. Faz tanto tempo que escrevi que não me lembro de muitos detalhes, mas gosto de pensar que ele serve para discutir adaptações em geral.
Outros pesquisadores de quadrinhos muito mais graduados que eu também participam com ótimos artigos discutindo vários temas relacionados a quadrinhos.
Teremos lançamento em setembro, ainda há tempo. Irei refrescar a memória de todos, mas estou postando agora apenas como marco. Se já quiserem adicionar em suas agendas, por favor:
Sábado, 19 de Setembro – a partir das 19:30
Livraria HQ Mix
Praça Roosevelt, 142, centro, São Paulo SP
update:
Sábado, 26 de Setembro – a partir das 19:30
Livraria HQ Mix
Praça Roosevelt, 142, centro, São Paulo SP
And Now for Something Completely Different
um ano a frente do g1
Hoje o G1 noticiou sobre a sinalização de bicicletas pintada no asfaltdo da Avenida Paulista. Pra quem ainda não havia descoberto, como o G1, ela não é oficial, mas sim uma ação cidadã por parte de ciclistas preocupados.
A iniciativa dos ciclistas é sensacional. O único problema da “notícia” é que ela está no mínimo um ano atrasada. E pior, eu falei sobre isso há exatamente um ano, como podem ver aqui. E tenho certeza que vários outros sites fizeram o mesmo. Como menciono no post passado, a própria Folha já falou sobre isso, três dias depois. A única importância do G1 no caso foi mostrar, indiretamente, que o pessoal da bicicletada continua pintando, afinal, a Paulista acaba de ser recapeada.
Na minha opinião, além de me achar o tal, isso mostra a importância do jornalismo cidadão real. Nada daquilo de ficar dando conteúdo de graça pro Terra ou pro Estadão. Mas participar de comunidades e sites formados por pessoas comuns, com noção de ética e cidadania, preocupadas em noticiar aquilo que as preocupam, não o que acham com que devamos nos preocupar.
blogcamp 2008, eu vou (fazer)
Eu me lembro claramente de ter fala do mal do BlogCamp 2007 por ser uma bagunça. Basicamente não consegui me inscrever porque o site era uma porcaria e fiquei emputecido. Entretanto não encontrei essa reclamação nos meus arquivos, então vocês vão ter que confiar na minha palavra de quem reclama.
Sabe quando você critica alguma coisa, qualquer coisa, seja filme, música, uma receita, uma placa mal colocada e sempre algum defensor babão diz “faz melhor, então”? Pois bem, ninguém me falou isso quando reclamei do BlogCamp, mas estou fazendo melhor. Quer dizer, estou fazendo, se é melhor é outro problema. Como é possível ver aqui não só irei como sou parte da produção.
Foi meio por acaso, a Lúcia precisava de uma mão com os logos em vetor e eu ajudei. E assim foi. Tudo meio correria. Claro que não será o maior evento do ano, mas eu acho interessante participar ativamente (mesmo que não tanto como algumas pessoas acreditam) de algo do qual reclamei.
Antes que digam que fui comprado pelo BlogCamp vou deixar claro que estou fazendo tudo de grátis. No meu tempinho livre ajudo como posso, como muitas coisas que faço por aí. O que ganho com isso? Não sei direito, atividade (mente vazia, casa do diabo), amigos, satisfação de participar de algo, ver pessoas contentes com o seu trabalho, esse tipo de coisa. Recomendo que todos façam isso, mesmo que de vez em quando, algo pelo prazer de fazer, de participar.
A lição aqui é, abrace seus críticos. Eles podem te ajudar muito. Agora, se o desse ano for pior do que o do ano passado, reclamem (mas não só comigo). Nos vemos no sábado.












