Archive for the ‘guerra’ tag
30ª Mostra de Cinema SP – Dia 1
Agora trabalhando no Conjunto Nacional, uma das coisas que decidi foi comprar um passe de 20 filmes e assistir à mostra de cinema em peso. Agora, logo que voltei do primeiro dia tive a idéia de publicar minhas impressões no overmundo, e o farei simultaneamente aqui, lembrando que aqui a crítica permanecerá inalterada, e no Overmundo ela está sujeita a edição.
Filme 1 – A Scanner Darkly
Como um scanner vê? Claramente ou obscuramente? Esta é uma tentativa tosca de traduzir a frase que dá nome ao conto de Philip K. Dick e ao filme baseado nele. Quão imparcial é um observador? E quando seu objeto de estudo inclui ele mesmo? Quem controla os controladores? Afinal, estamos à serviço de quê? Essas são algumas das perguntas que o observador perspicaz terá ao final da sessão de “A Scanner Darkly” de Richard Linklater.
Nessa época em que temos cada vez menos privacidade (algumas vezes por vontade própria), em que entretenimento rápido é uma opção cada vez mais preferida à relações duradouras e existe uma busca incessante por imagens instantâneas e super-realistas, Linklater parece tomar a decisão certa quanto a maneira de “arte-finalizar” o seu filme.
Aos desavisados, o Scanner a utiliza a versão digital de uma técnica chamada Rotoscopia, em que desenha-se sobre imagens capturadas por uma filmadora ou camera fotográfica (muito utilizada em desenhos animados desde o tempo da Branca de Neve). O filme assim ganha mais uma etapa que parece uma ponte entre produção e pós-produção, quase que aproximando-o do processo de criação de uma história em quadrinhos, onde por mais habilidoso que seja o desenhista, o trabalho final não pertence apenas à ele, mas também ao arte-finalista.
Da mesma maneira, não basta confiar nos fotógrafos e atores do filme, no final, cabe aos animadores (por mais digital que seja o processo) interpretar e de fato nos apresentar com a versão final dos eventos.
E considerando as temáticas de drogas, voyeurismo, conspiração e paranóia embutidas no filme, é difícil pensar em um acabamento melhor. Linklater já havia usado a mesma técnica no etéreo “Waking Life” onde tudo se encaixa muito bem, mas por diferentes motivos.
Pode ser apenas uma questão de distanciamento, mas a técnica agora parece mais apurada, existem mais detalhes a ser notados, e a sensação de flutuação é menor (que em Waking Life pode muito bem ter sido intencionalmente exagerada).
O filme corre com muito bom humor, e confesso que analizar interpretações em rotoscopia não cabe a mim, especialmente em se tratando de Keanu Reeves, que sempre me lembra de uma tábua de passar roupa, e Winona Ryder, a menina chorona do bairro. Mas serei audaz em dizer que Robert Downey Jr., mesmo embutindo canastrices e exageros, pareceu se sair muito bem e é o personagem mais memorável.
Fred, o personagem principal entra e sai do filme da mesma maneira, como uma tela em branco, ou talvez multicolorida. E apesar de o filme encerrar uma grande dúvida que a trama deixa no ar logo no início, várias outras, interpretativas, que surgem ao longo da história permanecem lá, e resta ao observador perspicaz decifrá-las.
Filme 2 – El Laberinto del Fauno
Particularmente, quanto menos eu souber sobre um filme antes de assisti-lo, melhor. Meus amigos estão cansados de saber disso, e por isso fico atento à opiniões (não sinopses) de pessoas selecionadas. E é sempre um dilema, é preciso saber alguma coisa a respeito antes de entrar na sala de cinema.
Neste caso sabia que envolvia a Espanha, um Labirinto, e obviamente, um Fauno (criatura mitológica que conheci de fato em As Crônicas de Nárnia). Pois bem, logo imaginei algo como de Alice no País das Maravilhas, em que a Espanha seria brevemente mostrada no início do filme e em seguida entraríamos em um mundo mágico repleto de fantasia.
Mas em se tratando de Guilhermo Del Toro (Espinha do Diabo e HellBoy), logo imaginei que haveria um toque dark, ou ao menos de humor negro. E eu estava afogado em razão. O Labirinto do Fauno não é o centro do filme, ele é o estopim que carrega uma trama bem escrita e conduzida.
É de fato um mundo mágico, mas ele não está além de uma porta pequenina no fundo de um buraco, ele corre lado a lado com a Espanha pós Guerra Civil. É difícil saber em que lado está o Fauno, mas o monstro mais importante da história logo nos é revelado em uma cena que me lembrou Irréversible (o polêmico filme do estupro de 12 minutos) – mas caso esse não seja o seu estilo de filme, por favor não se deixe levar por esse comentário.
Há bastante violência, e muita fantasia, e apesar de ser simples distinguir o real do mágico, em alguns pontos do filme eles se entrecruzam, e chegamos a ter três histórias paralelas igualmente fascinantes mas que parecem pertencer a três filmes totalmente distintos se não fosse Ofélia, a personagem-elo; mas mesmo com esse contraste tudo parece fluir de maneira bem planejada.
A ambientação é impecável, bem como a fotografia e a caracterização dos personagens. Não há falhas de caráter, todos agem de acordo com um histórico anterior que desconhecemos mas que somos capazes de deduzir facilmente.
Del Toro fascina com sua imaginação e crueldade. Ele parece uma mistura de Tolkien com David Cronenberg, injetando imagens fortes em uma fantasia intrigante. E mesmo ao final do filme, racionalizando os eventos, paira no ar qual é realmente a verdade a respeito do Fauno.
Definitivamente um conto de fadas para adultos.
you wanted the best, you got the best
Se Eric Hobsbawn escrever sobre a época atual, creio que a irá batizar de Era dos Excessos. Guerras arbitrárias, presidentes com mania de grandeza, cleptomaníacos e consumo desenfreado.
Agora com a digitalização de praticamente tudo tenho a impressão de que o grau consumismo retornou aos anos 80, quando as versões para consumidor de tudo que é tipo de produto começaram a surgir.
Mas não basta consumir, temos que ter o maior carro; o melhor mp3 player; a melhor comida; o DVD com mais extras; a melhor câmera digital. Posso estar enganado, mas há cerca de 10 anos o único produto em que nos preocupávamos (e mesmo assim nem tanto) em manter atualizado e no topo era o computador. Agora está em tudo, até quadrinhos são afetados por versões maiores e “edições especiais”.
Mas será que dá? Temos tempo de fazer tudo isso? Claro que um dos recursos laudeado em muitos produtos é a velocidade. Mas como bem observado em um comentarista do History Channel, quando gastamos menos tempo em uma tarefa temos o hábito de realizá-la mais vezes. Como vamos andar no nosso carro gigante enquanto tiramos fotos, ouvimos música, lavamos roupa, acessamos a internet e vemos os extras da edição super-ultra-colecionador-especial do Senhor dos Anéis?
Não sou um daqueles que acha que devemos retornar aos tempos de fogão à lenha e ferro de passar à carvão. Adoro tecnologia e novidades no ramo multimídia e do entretenimento. Mas também acho que as pessoas não estão preparadas para essa gama de opções.
É preciso entender qual é o produto certo para você antes de comprá-lo. Acho muito esquisito você gastar os tubos em um jipe muito louco pra depois aprender a andar em trilhas. Isso é colocar o carro na frente dos bois. Claro que você pode se quiser, mas será que vai conseguir? Você então compra o tal jipe, sai andando, vê que o treco é duro demais, ou tem opções demais, não sabe o que é torque, reduzida, diferencial, eixo cardã ou o raio que o parta. Então não consegue operar a porcaria do jipe direito, cujo manual você não leu porque nunca lê manuais, e acaba odiando o jipe e nunca mais coloca o pé na lama. Você aprendeu? Bom, se você vender o jipe para comprar uma moto em seguida eu acho que não aprendeu porcaria nenhuma.
É assim que as coisas funcionam hoje em dia, gasta-se primeiro e quem sabe, depois, quando tiver tempo, aproveita.
Cometo erros assim, mas até hoje em escala reduzida. Quem sabe com o tempo aprendo a não cometê-los mais.
SPAMALOT
Spam é um produto de carne em conserva vindo dos Estados Unidos. Ele ganhou muito espaço durante a segunda guerra, na forma de rações para os soldados e também como alimento para os civis em lugares envolvidos diretamente com a guerra, que sofriam com escassez geral de suprimentos em geral.
Foi uma fonte confiável e segura de proteínas para esses tempos difíceis.
Depois da guerra, em alguns lugares ele permaneceu popular, como no Havaí (que por sua natureza é um difícil de se conseguir carne de qualidade) e em outros caiu em desgraça, em termos, como na Inglaterra.
Ainda é vendido por lá (essa minha lata veio de lá) mas a população em geral estava de saco cheio da carne enlatada há algum tempo quando o Monty Python montou um sketch baseado em Spam.
Tratava-se de um casal indo a um restaurante e tentando em vão conseguir achar algum prato que não envolvesse SPAM, enquanto o garçom insistia em dar-lhes SPAM. Foi daí que veio o uso da palavra SPAM para e-mails não solicitados e outras formas mal-educadas de propaganda indigesta.
Quanto a digestibilidade da comida em si, ainda não experimentei. É válido até 2009, acho que vou fazer um mestrado primeiro e comer no jantar de comemoração da minha banca.
guerra no asfalto
Uma faixa “preferencial”. É assim que procuram apaziguar a guerra no trânsito de São Paulo. Isso mostra a total falta de conexão com a realidade que o poder público tem. E é de fato uma guerra, de um lado motoqueiros, que aumentam em número a cada dia, muitos deles trabalhando sem qualquer segurança trabalhista ou física, se enchendo de rancor e nesse sentido se unindo cada vez mais contra o outro lado, os motoristas, que se acham os donos da rua (a maioria de uma maneira ou de outra utiliza hipocritamente serviços de motoboys).
O problema, como sempre, é educação e fiscalização. Uma regulamentação mais rígida para motoristas e motociclistas profissionais, embasada com o devido treinamento e fiscalização ajudariam em muito a resolver essa situação desagradabilíssima onde ninguém sai ganhando.
Enquanto aqueles os profissionais do trânsito não derem o devido exemplo, ninguém irá respeitar absolutamente nada. Eu como ciclista veicular tenho todos os dias algum tipo de experiência desagradável que resulta do puro e simples desrespeito por parte dos motoristas, e digo sem pestanejar que a maioria desses respespeitosos são motoristas de táxi ou de ônibus. E como ciclista não tenho o menor desejo de ciclovias, não vejo como segregar os veículos em áreas restritas irá ajudar um trânsito já afogado e soterrado, eu desejo respeito.
Há uma questão de física. Tenho a consciência de que se eu sofrer algum tipo de acidente, eu levarei a pior da situação, e portanto ando equipado e faço tudo dentro da lei, pois quero no mínimo ter a razão.
E nesta situação em que nos encontramos, ninguém a tem, motoristas, motociclistas ou poder público. Todos querem encontrar a solução que mais os favoreça e não que resulte em um bem coletivo.
O vôo da Pegasus e a Queda de Bagdá
Venho dizendo há um tempo que Battlestar Galactica é a melhor série dramática da televisão, e o episódio transmitido pela TNT essa semana não só corrobora essa afirmação como eleva a qualidade da série a um patamar ainda mais alto.
Antes de tudo, digo aos desavisados que o nome indica o gênero da série: Trata-se de ficção científica. Mas não se deixe levar por isso, continue lendo ao menos. Entendo como isso pode ser um desestímulo para muitas pessoas, difícil de vencer. Mas também devemos lembrar que o trunfo do gênero é a capacidade de abstrair, extrapolar e intensificar questões muito palpáveis e apresenta-las sob um véu de fantasia um pouco mais fácil de engolir. Lembrando de filmes como 2001, Blade Runner, Alien, Gattaca e Exterminador do Futuro fica mais fácil entender o que quero dizer.
Nos idos anos 60, quem carregava a tocha da “ficção científica inteligente” era Jornada nas Estrelas. Pode parecer bastante ridículo para as platéias de hoje, e requerer um grau maior de suspensão de descrença aos vermos os fiozinhos segurando a Enterprise no espaço; mas a série detém muitos méritos por apresentar questões polêmicas, personagens instigadores e tecnologias inexistentes até então que hoje consideramos padrão (para não usar o inglês “take for granted”). E se você não tem um gosto especial pelo gênero ou pela história da cultura pop é perfeitamente compreensível que não se sinta atraído pelo Spock de pijamas.
O tempo passou, Star Trek continuou em outras encarnações mas não é mais um sucesso, diluiu-se e perdeu a graça até mesmo para fãs. Várias séries passaram pela telinha desde então, inclusive roubando o título de inovadora que Star Trek costumava ter.
Agora é a vez de Galactica. Relativamente desconhecida no Brasil, ela tem um sucesso respeitável nos EUA, lá, séries produzidas por canais não costumam vingar (o sistema de syndication reina, onde uma produtora faz tudo e vende para diversos canais), com nobres exceções, entre elas praticamente todas as séries da HBO. Galactica é uma delas, e não é à toa.
As séries que estão na boca do povo são Desperate Housewives, LOST e 24 horas. Um triunvirato massacrante e que tomou conta do Brasil também. Mas é uma pena que Galactica não esteja na grade da população.
Embora essas três séries tenham seus méritos e tenham momentos de brilhantismo que as tornem únicas, elas passam longe da nobreza de Galactica. E eis o porque: Galactica é uma série para adultos. Realmente o é. Não deixe seu filho de 10 anos vendo aquelas naves dando tirinhos umas nas outras, pois a cena seguinte pode marcá-lo para o resto da vida. Ficção Científica é um gênero que carrega um estigma semelhante ao de Histórias em Quadrinhos e Desenhos animados. E quando surge um representante que consegue romper as barreiras daquilo que é esperado, ao invés do público reconhecer a qualidade e o mérito, ataca, pois teme que aquilo irá fazer mal para as criancinhas. Sim, pode até fazer, mas não é para elas que é feito, é para você.
O que separa Galactica dessas Três (com T maiúsculo mesmo) está em uma simples palavra: Entretenimento. As Três não vão muito além disso. Entretenimento bem feito, como James Bond ou Piratas do Caribe, mas ainda sim puro entretenimento. Depois que você desliga a TV pode até continuar pensando, mas pensará dentro do universo da série, em Galactica, você pensa no mundo a sua volta.
Alguns podem dizer que LOST leva você a pensar em questões como destino e outras porcarias de nova era, e isso pra mim é papo de geração Matrix. Esse tipo de assunto até é coberto em Galactica, mas ele não é o fim, é apenas um meio para falar de algo maior. Quando falei que era uma séries de adulto, não estava falando de senas de sexo gratuito ou violência descomedida, estava falando de reflexão.
Vejo por aí pessoas falando na importância dos personagens nas mais diversas produções, como eles são a chave para o sucesso delas. E em boa parte é verdade. E a força de Galactica também está aí, em personagens críveis e em roteiros bem feitos. Roteiros muito bem feitos. E não se tratam de inúmeros heróis que são apenas caricaturas de si mesmo ou dos grupos que representam (como “o cara negro”, “o gordo bonachão”, “o cara árabe”, “a mulher mandona”, “o covarde”, “o nerd”, e por aí vai), são pessoas, como aquelas que encontramos em qualquer lugar. Apesar da história ser completamente mirabolante, os protagonistas dela são muito mais verossímeis do que qualquer personagem de novela ou de livro do Jorge Amado.
E chegamos ao episódio dessa semana, “Pegasus part I”, quem não viu vai ter que caçar na internet ou esperar a TNT reprisar. E esse episódio me deixou de queixo caído, literalmente. Eu costumo me empolgar diante da TV com as séries que gosto, confesso, vibro com Jack Bauer torturando alguém, mas durante Galactica essa semana, eu fiquei completamente silencioso. Não havia o que dizer, não havia reação, foi como se um punho saísse da tela e me desse um soco na cara.
Não irei dar Spoilers, se esse texto serviu de alguma coisa, você irá tentar ver essa maravilha da telinha. Mas tenho que comentar. A moral da história é: Abu Ghraib. Fazia muito tempo que eu não via uma peça de ficção (não necessariamente científica) tratar um tema atual de forma tão contundente e bem expressada, o filme V de Vingança tentou e falhou miseravelmente, Galactica saiu triunfante. E você pode ser perguntar: O que um seriado sobre naves espaciais tem em comum com o Iraque? Muito.
O que acontece quando você coloca sua gente em um lugar hostil e desconhecido, em que tudo que ela sabe ou pode fazer é lutar sem parar, sem saber exatamente o por que, nem com que propósito? O que virá depois da vitória? O que será construído? Sua gente sabe construir alguma coisa, ou apenas lutar? A luta acaba se tornando uma justificativa para si própria, luta-se para manter a mente ocupada, pois se parar para pensar no assunto, percebe que não há esperanças. Se um dia a guerra acabar, o que você vai fazer? Se o inimigo se rende, você demonstra misericórdia?
A cabeça fica tão condicionada, bitolada, que qualquer outro traço de humanidade vai pelos ares, e quando a oportunidade de se demonstrar maior que seu inimigo se apresenta, você sequer lembra que pode fazer isso, você aproveita para provar que o inimigo não é humano, não é digno de compaixão, e no processo perde sua própria humanidade.
Isso é uma ponta de Galactica, e até agora, o ápice, ao menos na minha opinião. O patamar acaba de ser elevado, e tenho firme esperança de que não serei decepcionado. Se você ficou curioso, vá atrás, o DVD da mini-série piloto e da primeira temporada está pra sair no Brasil, e a segunda temporada está rolando na TNT e na internet. Pegar a série andando será confuso no começo, especialmente se pegar este episódio, portanto corra e descubra você mesmo, mas aviso que “Pegasus Part I” não é para os de estômago fraco ou mente vazia, se você assistir passar batido você ou é insensível ou um burro.

