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look(ing) sharp
Sabe quando você quer alguém, mas é meio que descontinuado da vida da pessoa sem grandes explicações e só fica com a pulga atrás da orelha? E então, num belo dia quando está bem largado, mal vestido, com o cabelo tosco e uma barba escrota, comprando presente em um shopping tosco, cruza com a dita pessoa. O que fazer? Fugir, claro! Porque apresentável é que você não está.
Só podemos ficar relaxados quando cercados de pessoas que temos intimidade, caso contrário passamos a imagem de tosco – a não ser que você seja tosco mesmo, caso for, que se dane. Isso foi só para lembrar que é sempre bom estar alinhado e limpo.
Se estivesse assim, com certeza teria cumprimentado, para lembrar-lhe que existo e que estou arrasando. Pois se estiver arrasando, no mínimo um de dois pensamentos irá passar pela cabeça do outro: “Merda, desperdicei um partidão.” ou “Putz, preciso desse sabor.”
Assim você deixa uma marca boa. Bem, espero ter aprendido a lição: Jamais sair de casa parecendo um bicho reçém saído do zoológico.
30ª Mostra de Cinema SP – Dia 1
Agora trabalhando no Conjunto Nacional, uma das coisas que decidi foi comprar um passe de 20 filmes e assistir à mostra de cinema em peso. Agora, logo que voltei do primeiro dia tive a idéia de publicar minhas impressões no overmundo, e o farei simultaneamente aqui, lembrando que aqui a crítica permanecerá inalterada, e no Overmundo ela está sujeita a edição.
Filme 1 – A Scanner Darkly
Como um scanner vê? Claramente ou obscuramente? Esta é uma tentativa tosca de traduzir a frase que dá nome ao conto de Philip K. Dick e ao filme baseado nele. Quão imparcial é um observador? E quando seu objeto de estudo inclui ele mesmo? Quem controla os controladores? Afinal, estamos à serviço de quê? Essas são algumas das perguntas que o observador perspicaz terá ao final da sessão de “A Scanner Darkly” de Richard Linklater.
Nessa época em que temos cada vez menos privacidade (algumas vezes por vontade própria), em que entretenimento rápido é uma opção cada vez mais preferida à relações duradouras e existe uma busca incessante por imagens instantâneas e super-realistas, Linklater parece tomar a decisão certa quanto a maneira de “arte-finalizar” o seu filme.
Aos desavisados, o Scanner a utiliza a versão digital de uma técnica chamada Rotoscopia, em que desenha-se sobre imagens capturadas por uma filmadora ou camera fotográfica (muito utilizada em desenhos animados desde o tempo da Branca de Neve). O filme assim ganha mais uma etapa que parece uma ponte entre produção e pós-produção, quase que aproximando-o do processo de criação de uma história em quadrinhos, onde por mais habilidoso que seja o desenhista, o trabalho final não pertence apenas à ele, mas também ao arte-finalista.
Da mesma maneira, não basta confiar nos fotógrafos e atores do filme, no final, cabe aos animadores (por mais digital que seja o processo) interpretar e de fato nos apresentar com a versão final dos eventos.
E considerando as temáticas de drogas, voyeurismo, conspiração e paranóia embutidas no filme, é difícil pensar em um acabamento melhor. Linklater já havia usado a mesma técnica no etéreo “Waking Life” onde tudo se encaixa muito bem, mas por diferentes motivos.
Pode ser apenas uma questão de distanciamento, mas a técnica agora parece mais apurada, existem mais detalhes a ser notados, e a sensação de flutuação é menor (que em Waking Life pode muito bem ter sido intencionalmente exagerada).
O filme corre com muito bom humor, e confesso que analizar interpretações em rotoscopia não cabe a mim, especialmente em se tratando de Keanu Reeves, que sempre me lembra de uma tábua de passar roupa, e Winona Ryder, a menina chorona do bairro. Mas serei audaz em dizer que Robert Downey Jr., mesmo embutindo canastrices e exageros, pareceu se sair muito bem e é o personagem mais memorável.
Fred, o personagem principal entra e sai do filme da mesma maneira, como uma tela em branco, ou talvez multicolorida. E apesar de o filme encerrar uma grande dúvida que a trama deixa no ar logo no início, várias outras, interpretativas, que surgem ao longo da história permanecem lá, e resta ao observador perspicaz decifrá-las.
Filme 2 – El Laberinto del Fauno
Particularmente, quanto menos eu souber sobre um filme antes de assisti-lo, melhor. Meus amigos estão cansados de saber disso, e por isso fico atento à opiniões (não sinopses) de pessoas selecionadas. E é sempre um dilema, é preciso saber alguma coisa a respeito antes de entrar na sala de cinema.
Neste caso sabia que envolvia a Espanha, um Labirinto, e obviamente, um Fauno (criatura mitológica que conheci de fato em As Crônicas de Nárnia). Pois bem, logo imaginei algo como de Alice no País das Maravilhas, em que a Espanha seria brevemente mostrada no início do filme e em seguida entraríamos em um mundo mágico repleto de fantasia.
Mas em se tratando de Guilhermo Del Toro (Espinha do Diabo e HellBoy), logo imaginei que haveria um toque dark, ou ao menos de humor negro. E eu estava afogado em razão. O Labirinto do Fauno não é o centro do filme, ele é o estopim que carrega uma trama bem escrita e conduzida.
É de fato um mundo mágico, mas ele não está além de uma porta pequenina no fundo de um buraco, ele corre lado a lado com a Espanha pós Guerra Civil. É difícil saber em que lado está o Fauno, mas o monstro mais importante da história logo nos é revelado em uma cena que me lembrou Irréversible (o polêmico filme do estupro de 12 minutos) – mas caso esse não seja o seu estilo de filme, por favor não se deixe levar por esse comentário.
Há bastante violência, e muita fantasia, e apesar de ser simples distinguir o real do mágico, em alguns pontos do filme eles se entrecruzam, e chegamos a ter três histórias paralelas igualmente fascinantes mas que parecem pertencer a três filmes totalmente distintos se não fosse Ofélia, a personagem-elo; mas mesmo com esse contraste tudo parece fluir de maneira bem planejada.
A ambientação é impecável, bem como a fotografia e a caracterização dos personagens. Não há falhas de caráter, todos agem de acordo com um histórico anterior que desconhecemos mas que somos capazes de deduzir facilmente.
Del Toro fascina com sua imaginação e crueldade. Ele parece uma mistura de Tolkien com David Cronenberg, injetando imagens fortes em uma fantasia intrigante. E mesmo ao final do filme, racionalizando os eventos, paira no ar qual é realmente a verdade a respeito do Fauno.
Definitivamente um conto de fadas para adultos.
transubstanciação
Estava precisando de uma calça nova, e queria ir na Renner, que costuma ter umas coisas legais e tem preço de classe média pé no chão. Então fui so Shopping Morumbi, já que perto da minha casa não tem nenhuma, com a Mi (que veio passar o fim de semana aqui).
Dei umas voltas lá e não achei nada que gostasse particularmente. Coisas boas, mas nada muito legal. Como a Zara era ao lado, resolvi olhar, já que isso pelo menos não custa, já sabendo que os preços lá são mais altos (mas se houvesse algo muito legal eu levaria).
Qual não foi minha surpresa a encontrar exatamente as mesmas coisas? Bom, não literalmente, mas tudo era muito parecido, até as camisetas tinham um estilo visual semelhante à algumas em exposição na Renner. E tudo com o dobro do preço. E pensei: Será que a Renner está virando a Zara ou a Zara está virando a Renner? A Mi optou pela primeira, mas eu pendia para a segunda.
Alguns minutos depois, conclui: A Zara está virando a Renner: Na Zara havia para vender uma camiseta do Super-Homem.
espinafre
No fim de semana fiz uma visita relâmpago a BH. Foi muito boa. Não só encontrei com a Mi (obviamente) como ainda tive ilustres momentos com Rafa; Zecão; Gabi; Fofa; Serginho; Lets; Clá; Ti; Lucas; Zubreu; Bárbara e muito mais.
Além disso fui no FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) onde vi as exposições e comprei o lançamento “O Espinafre de Yukiko” do Frédéric Boilet. Acontece que ele estava por lá (ia dar uma palestra à tarde) e aproveitei pra pedir um autógrafo e explicar que sou “pesquisador” e gostaria de contactá-lo futuramente.
Então na segunda, logo que cheguei em casa, vi no jornal que teria o lançamento as 19:00 na FNAC. Me empolguei e nem fui de bicicleta pro trabalho, pensando em ir direto pra lá depois. Só que quebrei a cara, já que fiquei até as 18:50 trabalhando. Fiquei preso no escritório justo no dia em que tinha compromisso. Ô zica.
Mas eu recomendo muito o quadrinho. É parte do movimento que chamam de Nouvelle Mangá. Na verdade dá pra notar claramente que o estilo é muito mais franco-belga do que japones. De japão o que marca é a natureza da história, não a linguagem. Quero ver mais coisas dessa nova onda…
águas de março
águas de março
Está chovendo pacas esses dias aqui em Belo Horizonte. Estou aqui nos preparativos e no aguardo da expedição. Estou feliz por ter vindo pra cá e ter tomado esse que pode ser o primeiro passo para uma nova fase. Prevendo que andarei muito sob o sol resolvi comprar um chapéu. Então hoje fui com a Mi comprar um, não resisti e comprei um legítimo Chapéu Panamá (na verdade é um híbrido Equatoriano-Brasileiro
).
Quem usava sempre esse estilosíssimo chapéu era o Tom Jobim, que eternizou as seguintes palavras:
Águas De Março
Composição: Tom Jobim
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É uma ponta, é um ponto, é um pingo pingando
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração